O Santo e a Porca: a farsa de Ariano Suassuna sobre avareza e fé
Antes de conquistar o Brasil com O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna já vinha construindo o método que marcaria toda sua obra: pegar referências da tradição teatral clássica e recontá-las com a alma do sertão nordestino. O Santo e a Porca, farsa escrita em 1957, é um exemplo perfeito desse processo.
Antes de conquistar o Brasil com O Auto da Compadecida , Ariano Suassuna já vinha construindo o método que marcaria toda sua obra: pegar referências da tradição teatral clássica e recontá-las com a alma do sertão nordestino. O Santo e a Porca , farsa escrita em 1957, é um exemplo perfeito desse processo. Uma comédia latina, reencenada no sertão A peça se inspira em Aulularia , comédia do dramaturgo romano Plauto sobre um velho avarento obcecado por um pote de ouro escondido. Suassuna transporta essa estrutura pro Nordeste brasileiro, criando Eurico, um sertanejo mesquinho que esconde seu tesouro dentro de uma porca de cerâmica — o tipo de cofre popular que qualquer criança brasileira reconheceria. Um título com dois sentidos O próprio nome da peça já entrega parte do jogo: “o santo” remete a uma imagem religiosa que também guarda segredos na trama, enquanto “a porca” é literalmente o cofre de cerâmica onde Eurico esconde sua fortuna. É o tipo de humor que Suassuna dominava — trocadilho simples que esconde uma crítica social mais afiada por trás. Avareza como retrato de um Brasil específico Mais do que rir da mesquinhez de um único personagem, a peça expõe uma tensão que atravessa boa parte da obra do autor: a distância entre aparência religiosa e comportamento real, entre o que se prega e o que se pratica. Eurico é avarento, mas vive cercado de símbolos de fé — contradição que Suassuna explora com o humor ácido que se tornaria sua marca registrada. O método Suassuna em ação Pegar uma referência erudita — nesse caso, o teatro latino clássico — e recriá-la totalmente ambientada na cultura popular nordestina é exatamente a fórmula que sustenta toda a obra do autor. O Santo e a Porca mostra esse processo já em estado bastante maduro, anos antes do sucesso ainda maior que viria com O Auto da Compadecida . Por que ler essa peça hoje Além do valor histórico dentro da trajetória do autor, O Santo e a Porca continua funcionando como comédia — o tipo de humor que envelhece bem porque mira em comportamentos humanos que não mudam muito com o tempo. Ganância, hipocrisia religiosa, esperteza popular: são temas tão atuais quanto quando a peça foi escrita.