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O efeito Scarpa: como um jogador de futebol colocou clássicos de volta na conversa

Como Gustavo Scarpa ajudou Tolstói a voltar aos mais vendidos e inspirou a Galeitura? Entenda o que o fenômeno diz sobre clássicos, futebol e leitura.

Em setembro de 2026, uma resenha de dez minutos do meio-campista Gustavo Scarpa sobre A Morte de Ivan Ilitch , de Tolstói, em seu canal no YouTube, ultrapassou 600 mil visualizações e levou o livro ao topo dos mais vendidos da Amazon Brasil. A repercussão inspirou a torcedora atleticana Carolina Marques a criar a Galeitura, clube do livro que já reúne mais de 700 participantes e passa de 80 mil seguidores no Instagram, unindo futebol e literatura. A cena contém uma contradição apenas aparente: um jogador de futebol publica vídeos comentando clássicos, torcedores começam a ler junto e um livro do século XIX sobe nos rankings de venda. Em setembro de 2026, foi exatamente isso que aconteceu ao redor de Gustavo Scarpa e da torcida do Atlético-MG. A primeira leitura em destaque foi A Morte de Ivan Ilitch , de Liev Tolstói, publicada originalmente em 1886. O título chegou ao topo de vendas da Amazon Brasil enquanto a Galeitura, criada pela torcedora Carolina Marques, de 22 anos, organizava cronograma, discussões e encontros. O clássico muda quando quem recomenda muda Muita gente conhece Tolstói, Dostoiévski ou Kafka primeiro como nomes de escola, vestibular ou listas de “livros que você precisa ler”. Essa entrada produz uma relação marcada por obrigação antes mesmo da primeira página. Quando o mesmo livro aparece numa recomendação informal de alguém cuja autoridade vem de outro território, a obra perde parte desse peso institucional. Scarpa, que já comentava clássicos nas redes desde 2021, ainda no Palmeiras, não precisa convencer ninguém de que Tolstói é importante; precisa apenas explicar por que valeu a pena ler. A diferença de tom pode ser suficiente para devolver curiosidade ao livro. Furar a bolha também significa mudar quem parece autorizado a falar de literatura O interesse em torno da Galeitura não nasce apenas da escolha dos títulos, mas de quem está fazendo a escolha. O futebol brasileiro ocupa um espaço cultural enorme e tradicionalmente pouco associado à conversa pública sobre leitura. Quando um atleta comenta livros sem transformar isso em performance de erudição, produz um efeito simbólico importante: leitura deixa de parecer pertencente a um tipo específico de pessoa. O gesto amplia o imaginário de quem pode ser leitor. O próprio hábito de Scarpa já havia se espalhado para dentro do vestiário do Atlético-MG, com colegas como Tomás Cuello, Tomás Pérez e Victor Hugo compartilhando leituras nas redes. Clássicos têm uma vantagem quando finalmente encontram o leitor certo Livros que sobreviveram por décadas ou séculos carregam um estoque enorme de interpretações, traduções, adaptações e conversas anteriores. Isso pode intimidar, mas também significa que quase sempre existe uma porta de entrada possível. A Morte de Ivan Ilitch fala de trabalho, status, doença, família e medo da morte em pouco mais de uma centena de páginas. Não é difícil entender por que uma história tão antiga consegue produzir conversa imediata num grupo contemporâneo. O clássico não precisa parecer antigo quando o problema que apresenta continua vivo. O efeito também aparece dentro de campo Reportagens recentes mostram que o hábito de Scarpa se espalhou entre companheiros de equipe, enquanto torcidas de outros clubes passaram a discutir iniciativas semelhantes. Essa expansão importa porque transforma leitura em comportamento social observável. Não é mais apenas o gosto particular de um jogador; torna-se prática que pode ser imitada, compartilhada e adaptada. Toda tendência cultural depende, em alguma medida, de alguém ver outra pessoa fazendo aquilo primeiro. O fenômeno também expôs um número desconfortável A repercussão nacional em torno de Scarpa trouxe à tona um dado que ajuda a entender por que a notícia chamou tanta atenção: segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, apenas 18% da população brasileira com 18 anos ou mais comprou ao menos um livro em 2025. Nesse cenário, um único vídeo capaz de levar um clássico russo ao topo das vendas se torna ainda mais significativo, porque mostra que o interesse por leitura não desapareceu — só está esperando encontrar o gatilho certo. Não existe contradição entre cultura popular e alta literatura A surpresa provocada pelo fenômeno revela também uma divisão artificial. Futebol seria entretenimento de massa; Tolstói pertenceria à alta cultura. Como se uma pessoa precisasse escolher um território. Leitores reais nunca funcionaram dessa maneira. A mesma pessoa pode acompanhar campeonato, reality show, fantasia épica e literatura russa sem pedir permissão para atravessar fronteiras culturais. Talvez a Galeitura pareça tão fresca justamente porque trata isso como normal. O catálogo de clássicos ganha outra oportunidade quando a conversa vem de fora da livraria Para editoras, o fenômeno oferece uma lição útil. O desafio de um clássico não é apenas continuar disponível; é continuar encontrando novos contextos de descoberta. Dostoiévski, Kafka, Jane Austen, Sartre, Beauvoir, Ariano Suassuna e tantos outros podem voltar a circular quando uma conversa contemporânea oferece uma pergunta capaz de aproximá-los do leitor. Às vezes, a melhor campanha para um livro de cem anos não começa dizendo que ele é importante. Começa mostrando que alguém interessante acabou de lê-lo. Talvez o verdadeiro efeito Scarpa seja diminuir a distância entre livro e leitor Uma indicação funciona quando não parece teste de conhecimento. Ninguém entra num clube para provar que merece Tolstói; entra porque quer descobrir o que os outros viram naquele livro. A Galeitura transforma o clássico em experiência compartilhada, com cronograma, conversa e curiosidade coletiva. Se mais leitores chegarem a obras antigas por caminhos inesperados, talvez deixemos finalmente de perguntar por que ainda lemos clássicos e passemos a perguntar qual deles alguém vai recomendar amanhã. Perguntas frequentes O que é a Galeitura? É um clube do livro criado pela torcedora Carolina Marques, inspirado nas resenhas literárias do jogador Gustavo Scarpa, que já reúne mais de 700 participantes e mais de 80 mil seguidores no Instagram. Que livro Gustavo Scarpa recomendou que virou sucesso de vendas? A Morte de Ivan Ilitch , novela de Liev Tolstói publicada em 1886, que chegou ao topo dos mais vendidos da Amazon Brasil depois de uma resenha do jogador no YouTube. Gustavo Scarpa sempre gostou de literatura? Sim. Ele já comentava clássicos nas redes sociais desde 2021, ainda no Palmeiras, antes de o hábito ganhar a repercussão atual no Atlético-MG.