Descubra

Existe vida além de introvertidos e extrovertidos?

As duas palavras se tornaram atalhos poderosos para explicar como nos relacionamos com o mundo, mas a personalidade humana é mais contínua, contraditória e difícil de encaixar em duas caixas do que a linguagem das redes sociais costuma sugerir.

Em algum momento, introvertido e extrovertido deixaram de ser apenas termos da psicologia e passaram a funcionar como pequenas biografias. Uma pessoa recusa uma festa porque está cansada e imediatamente se define como introvertida; outra gosta de conversar com desconhecidos e encontra na extroversão uma explicação para quase tudo; testes, memes e vídeos organizam comportamentos cotidianos em dois lados opostos, como se cada um de nós precisasse escolher em qual deles pretende morar. A popularidade dessas categorias faz sentido porque elas oferecem uma linguagem simples para diferenças que realmente existem, mas a própria psicologia costuma tratá-las de maneira menos rígida. Introversão e extroversão são entendidas como extremos de um contínuo, e não como duas espécies humanas separadas, o que significa que uma pessoa pode apresentar diferentes graus de sociabilidade, assertividade, busca por estímulo e expressão emocional sem caber perfeitamente em um rótulo. Um eixo não consegue explicar uma pessoa inteira Nos modelos contemporâneos de personalidade, a extroversão aparece como uma dimensão importante, mas ela convive com outras características que também influenciam comportamento, relações e escolhas. Duas pessoas igualmente sociáveis podem diferir profundamente em organização, abertura a experiências, estabilidade emocional ou disposição para cooperar, assim como alguém reservado pode ser extremamente confortável em situações sociais específicas e pouco interessado em outras. Há ainda uma diferença entre preferência e capacidade. Uma pessoa pode falar muito bem em público e ainda assim preferir passar boa parte do tempo sozinha; outra pode adorar companhia e sentir insegurança em grandes grupos; alguém pode ser silencioso numa reunião e completamente expansivo entre amigos. O comportamento visível nem sempre revela com precisão aquilo que produz conforto, desejo ou cansaço. Talvez por isso a tentativa de descobrir “o que eu sou” nem sempre seja tão útil quanto observar em quais situações determinada versão de nós aparece. Pertencer a um grupo é outra pergunta Existe também uma questão que o eixo introversão e extroversão não foi criado para responder: o quanto uma pessoa deseja pertencer a grupos. Gostar de conversar, fazer amigos ou circular por ambientes sociais não significa necessariamente sentir necessidade de se identificar com uma comunidade, assim como preferir momentos de solidão não implica rejeitar vínculos coletivos. Essa diferença fica mais clara quando pensamos em alguém que mantém amizades profundas, conversa com facilidade e se relaciona intensamente de um para um, mas sente desconforto diante de identidades de grupo, rituais de pertencimento ou expectativas de conformidade. Essa pessoa poderia parecer extrovertida em muitos contextos e, ainda assim, experimentar uma relação muito particular com a ideia de “fazer parte”. É nesse espaço que surgem propostas recentes de vocabulário para descrever experiências que não parecem suficientemente explicadas pelas categorias mais populares. A ideia de “outrovertido” O psiquiatra Rami Kaminski propõe o termo “outrovertido” para descrever pessoas que, segundo sua formulação, não possuem o mesmo impulso de identificação com grupos, embora possam construir relações individuais profundas, ser sociáveis e participar ativamente da vida ao redor. A ideia aparece em seu livro As Vantagens de Não Pertencer e desloca a pergunta da quantidade de interação social para a relação subjetiva com pertencimento, conformidade e identidade coletiva. É importante fazer uma distinção: “outrovertido” não é uma categoria diagnóstica nem uma dimensão consolidada nos principais modelos científicos de personalidade da mesma maneira que a extroversão. Trata-se de uma proposta conceitual apresentada por Kaminski a partir de sua experiência clínica e de sua interpretação de determinado estilo de relação com grupos. Ainda assim, conceitos novos podem ser interessantes quando ajudam alguém a formular uma experiência que antes parecia difícil de nomear, desde que o nome não seja confundido com uma explicação definitiva sobre a pessoa. Rótulos ajudam quando abrem uma conversa Há uma razão para gostarmos tanto de categorias de personalidade: elas organizam experiências dispersas e oferecem a sensação de reconhecimento. Descobrir uma palavra que parece explicar por que determinadas situações sempre foram desconfortáveis pode produzir alívio, além de facilitar conversas com outras pessoas que descrevem algo semelhante. O problema começa quando o rótulo deixa de ser ferramenta e passa a funcionar como destino. “Sou introvertido” pode se transformar em justificativa para evitar qualquer experiência social, “sou extrovertido” pode criar a expectativa de estar sempre disponível e animado, e qualquer nova categoria corre o mesmo risco se for usada para substituir curiosidade por certeza. Personalidade é relativamente estável em muitos aspectos, mas comportamento também responde a contexto, idade, vínculos, cultura, segurança e aprendizagem. Uma palavra pode iluminar um padrão sem precisar resumir uma vida inteira. Talvez a pergunta mais interessante seja outra Em vez de tentar decidir de uma vez por todas se somos introvertidos, extrovertidos, ambivertidos ou qualquer outra coisa, pode ser mais revelador perguntar onde nossa energia cresce, em que situações nos sentimos performando um papel, quais vínculos nos dão liberdade e quanto de pertencimento realmente desejamos. Algumas pessoas encontram força em comunidades muito definidas; outras preferem circular entre diferentes grupos sem transformar nenhum deles em centro da própria identidade; há quem precise de longos períodos de recolhimento e quem só compreenda plenamente uma experiência depois de compartilhá-la. Nenhuma dessas formas precisa existir em estado puro. Talvez o valor das categorias esteja menos em nos colocar dentro de uma caixa do que em mostrar que existem muitas maneiras de se relacionar com o mundo, inclusive algumas que ainda estamos aprendendo a nomear.